Crédito corporativo sob pressão: o que o ciclo de 2026 revela sobre a fragilidade das estruturas de financiamento no Brasil?

Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez
Felipe Rassi

Para cada empresa que consegue refinanciar sua dívida em condições aceitáveis em 2026, há um número crescente que não encontra essa saída. Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, examina esse desequilíbrio como um sintoma estrutural do modelo de financiamento corporativo brasileiro, historicamente dependente de crédito bancário de curto prazo e de condições macroeconômicas que o ciclo atual simplesmente não oferece. A taxa média de rolagem de dívidas corporativas no sistema financeiro nacional recuou 14 pontos percentuais no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Banco Central, sinalizando que o problema não é pontual e não se resolverá espontaneamente com a normalização das condições de mercado.

Como a dependência do crédito bancário fragiliza o financiamento corporativo?

O modelo de financiamento das empresas brasileiras de médio porte reproduz, há décadas, um padrão que os mercados mais desenvolvidos abandonaram progressivamente: concentração excessiva em linhas bancárias de curto prazo, renovadas periodicamente em condições que refletem o humor do momento e a disposição da instituição financeira, sem qualquer garantia de continuidade. Quando o ambiente de crédito se contrai, esse modelo revela sua fragilidade de forma abrupta.

Em mercados como o norte-americano e o europeu, empresas de porte equivalente às médias brasileiras acessam o mercado de capitais com relativa naturalidade, emitindo títulos de dívida com prazos de cinco a dez anos que eliminam a exposição ao risco de rolagem de curto prazo. No Brasil, essa alternativa ainda é restrita a um universo pequeno de empresas com rating, histórico de governança e relacionamento institucional suficientes para acessar esse mercado. Para as demais, o banco continua sendo o único caminho, com todas as vulnerabilidades que isso implica.

Conforme observa Felipe Rassi, a concentração do crédito corporativo brasileiro nos cinco maiores bancos do país, que respondem por mais de 80% do volume total de concessões, cria uma dependência sistêmica que amplifica os efeitos de qualquer movimento restritivo dessas instituições sobre o conjunto da economia produtiva.

O papel do mercado de capitais como alternativa estrutural

A ampliação do acesso das empresas brasileiras ao mercado de capitais como fonte primária de financiamento é uma discussão que avança, mas em ritmo aquém do necessário diante da urgência que o ciclo atual impõe. As emissões de debêntures por empresas fora do segmento de infraestrutura cresceram 31% em volume no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, segundo a ANBIMA, sinalizando um movimento real de diversificação. Ainda assim, o universo de empresas com acesso efetivo a esse mercado permanece restrito.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

A barreira não é apenas regulatória. É também cultural e operacional. Muitas empresas de médio porte não possuem a estrutura de governança, a transparência de informações e o histórico de relacionamento com investidores institucionais que uma emissão bem-sucedida no mercado de capitais exige. Construir essa capacidade demanda tempo e investimento que, em um momento de pressão financeira aguda, poucas organizações têm condições de priorizar.

Na visão de Felipe Rassi, o desenvolvimento do mercado de capitais como alternativa real ao crédito bancário para empresas de médio porte é uma das transformações mais importantes que o sistema financeiro brasileiro precisa consolidar na segunda metade desta década, e o ciclo adverso de 2026 pode funcionar, paradoxalmente, como catalisador desse processo ao evidenciar de forma inequívoca os custos da dependência bancária.

Crédito corporativo e seleção adversa: quem consegue captar e a que preço?

Um fenômeno característico de ciclos de restrição de crédito é a seleção adversa que se instala no mercado: as empresas com menor risco de crédito conseguem captar, embora a custos mais elevados do que em períodos normais, enquanto as empresas com maior necessidade de capital são exatamente as que encontram as portas fechadas. O resultado é uma concentração de crédito disponível nas empresas que menos precisam dele e uma escassez severa para aquelas em situação mais frágil.

Sob o entendimento de Felipe Rassi, esse mecanismo de seleção adversa tem consequências que vão além da situação individual de cada empresa. Quando empresas viáveis operacionalmente não conseguem acessar crédito para atravessar um período de estresse temporário, o resultado é uma onda de inadimplência e de recuperações judiciais que poderia ter sido evitada com instrumentos adequados de financiamento de transição. O custo social e econômico dessa dinâmica é significativamente superior ao custo de desenvolver alternativas de crédito mais acessíveis para esse segmento.

Caminhos para reduzir a vulnerabilidade estrutural do crédito corporativo

Reduzir a dependência do crédito bancário de curto prazo e construir estruturas de financiamento mais resilientes não é um processo que ocorre de forma espontânea. Exige decisões estratégicas deliberadas por parte das empresas e um ambiente regulatório que incentive a diversificação das fontes de capital.

Entre as alternativas disponíveis no mercado brasileiro atual, destacam-se a emissão de Notas Comerciais para operações de prazo intermediário, o uso de FIDCs para securitização de recebíveis como forma de antecipar fluxo de caixa sem pressionar o endividamento bancário, e a construção de relacionamento com fundos de crédito privado que operam com horizontes de investimento mais longos e maior tolerância à complexidade das operações. Como enfatiza Felipe Rassi, a construção dessa diversificação precisa começar antes da crise, quando a empresa ainda tem poder de negociação e tempo para estruturar alternativas sem a pressão da urgência. Esperar o momento de dificuldade para iniciar esse processo é, invariavelmente, tarde demais.

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