Como lideranças técnicas decidem o que entra e o que fica de fora de um roadmap?

Louise Corvain Por Louise Corvain

Um roadmap de tecnologia raramente falha por falta de boas ideias. Falha porque boas ideias demais competem pelo mesmo tempo de equipe, e alguém precisa decidir quais ficam de fora sem que isso pareça arbitrário. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, diretor de tecnologia, alude à dificuldade real desse trabalho: quase toda proposta parece razoável isoladamente, e é justamente por isso que a decisão exige critério, não apenas bom senso.

Times de tecnologia recebem pedidos de áreas diferentes o tempo todo, cada uma convencida de que sua demanda é a mais urgente. Sem um processo claro para pesar essas demandas, o roadmap acaba refletindo quem pediu por último ou quem gritou mais alto, em vez do que realmente move o negócio.

Prioridade não é sobre o que é bom, é sobre o que é bom agora

Uma iniciativa pode ser tecnicamente sólida e ainda assim errada para este momento, porque depende de uma capacidade que a equipe ainda não tem ou porque compete por recursos com algo mais urgente. Separar valor absoluto de valor no tempo certo é o que distingue uma lista de desejos de um roadmap de verdade.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira enfatiza que a pergunta não deveria ser apenas se a iniciativa entrega resultado, mas se ela entrega resultado suficiente para justificar o que sai do caminho para abrir espaço. Todo sim a um projeto novo é, na prática,  um não silencioso a outra coisa que também merecia atenção, e poucas equipes param para nomear explicitamente o que ficou de fora.

O custo invisível de dizer sim a tudo

Equipes que tentam acomodar toda demanda relevante acabam fragmentando esforço entre iniciativas demais, e cada uma delas avança mais devagar do que avançaria isolada. O resultado costuma ser um roadmap cheio de projetos em andamento e poucos projetos realmente concluídos.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira
Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira

Esse custo raramente aparece em uma planilha, porque não é uma linha de despesa; é velocidade perdida, espalhada por toda a operação e disfarçada de progresso simultâneo em várias frentes. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira ilustra esse efeito com um caso comum: uma equipe que assume cinco frentes simultâneas costuma entregar menos, no total, do que a mesma equipe dedicada a duas frentes por vez.

Critérios que sobrevivem à pressão do momento

Decisões de roadmap tomadas sob pressão tendem a favorecer quem está fisicamente na sala ou quem fez o pedido mais recente, o que é péssimo critério de priorização. Ter parâmetros definidos antecipadamente, como impacto no negócio, viabilidade técnica e dependências entre times, protege a decisão da urgência do momento.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira pontua que esses critérios só funcionam quando são conhecidos por todos antes da discussão começar, não inventados durante a reunião para justificar uma escolha já feita. Um processo transparente também facilita explicar aos times por que algo relevante ficou de fora desta vez.

Roadmap é decisão contínua, não documento fechado

Um roadmap definido no início do trimestre e nunca mais revisitado ignora que prioridades de negócio mudam, novos riscos aparecem e projetos em andamento revelam informação que não existia no planejamento original. Tratar o roadmap como algo imutável é abrir mão da própria razão de ter um processo de decisão.

Revisar critérios e prioridades em ciclos regulares, com a mesma disciplina usada para construí-los na primeira vez, é o que mantém o roadmap conectado à realidade da empresa em vez de virar um artefato que ninguém mais consulta depois da apresentação inicial. A pergunta que sustenta um bom roadmap não é o que decidimos em janeiro, mas se essa decisão ainda faz sentido agora, com o que já se sabe hoje.

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