O Brasil terá uma geração de idosos digitais? Veja com o Doutor Yuri Silva Portela

Louise Corvain Por Louise Corvain
Yuri Silva Portela

O Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, destaca que o envelhecimento das próximas gerações acontecerá em um cenário muito diferente daquele vivido pelos idosos de hoje. As transformações sociais e tecnológicas também interferem na autonomia durante a terceira idade, especialmente à medida que diferentes atividades cotidianas passam a depender de ferramentas digitais. 

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Os idosos do futuro terão outra relação com a tecnologia? Confira com o Doutor Yuri Silva Portela

As pessoas que chegarão aos 70, 80 ou 90 anos nas próximas décadas não começarão a utilizar tecnologia somente na velhice. Muitas terão passado grande parte da vida profissional e pessoal diante de computadores e smartphones, acumulando experiência com plataformas digitais, pagamentos eletrônicos, mensagens instantâneas e diferentes formas de comunicação virtual. Essa trajetória tende a formar uma população idosa mais habituada a incorporar recursos tecnológicos às atividades cotidianas.

Conforme o Doutor Yuri Silva Portela, isso pode alterar a própria ideia de inclusão digital na terceira idade. Hoje, parte das iniciativas está concentrada em ensinar o uso básico de dispositivos e aplicativos. No futuro, o desafio poderá estar menos no primeiro contato com a tecnologia e mais em acompanhar mudanças rápidas de interfaces, sistemas de autenticação e novas ferramentas. A capacidade de adaptação às atualizações poderá se tornar tão importante quanto o conhecimento adquirido anteriormente.

Ainda assim, familiaridade não significa domínio permanente. Tecnologias envelhecem junto com seus usuários, enquanto outras surgem para substituí-las. Alguém acostumado aos aplicativos atuais poderá enfrentar, décadas adiante, ferramentas completamente diferentes. Portanto, ser digitalmente ativo hoje não garante a ausência de dificuldades no futuro. A inclusão precisará ser compreendida como um processo contínuo, capaz de acompanhar tanto o envelhecimento das pessoas quanto a evolução dos recursos digitais.

Por que a exclusão digital atual ainda preocupa?

À medida que serviços migram para aplicativos e plataformas on-line, não conseguir utilizar esses recursos deixa de representar apenas uma dificuldade tecnológica. Agendamentos, operações bancárias, documentos, comunicação e determinados serviços de saúde podem exigir algum nível de interação digital, tornando essa habilidade cada vez mais relacionada à autonomia cotidiana.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Para o Doutor Yuri Silva Portela, a questão pode ser analisada também pela perspectiva funcional. Um idoso pode apresentar condições físicas para administrar a própria rotina e, mesmo assim, depender de outra pessoa porque não consegue navegar por determinada plataforma. Nesse caso, a barreira não está necessariamente em sua capacidade individual, mas na maneira como o serviço foi desenvolvido.

Digitalizar a saúde pode aproximar ou afastar?

Teleconsultas, prontuários eletrônicos, resultados de exames pela internet e agendamentos digitais podem reduzir deslocamentos e facilitar determinadas etapas do cuidado. Para idosos que vivem longe dos serviços ou possuem dificuldades de mobilidade, essas ferramentas podem representar uma alternativa importante quando utilizadas de maneira adequada. Além de diminuir barreiras geográficas, os recursos digitais podem tornar algumas informações de saúde mais acessíveis ao longo do acompanhamento.

Entretanto, o benefício diminui quando a pessoa depende de familiares para acessar senhas, instalar aplicativos ou compreender procedimentos. A digitalização pode facilitar uma tarefa para um grupo enquanto acrescenta etapas para outro. Por isso, disponibilizar um serviço on-line não significa automaticamente torná-lo acessível. Interfaces complexas ou processos pouco intuitivos podem transformar uma solução tecnológica em mais uma dificuldade na busca por atendimento.

Na área de atuação do Doutor Yuri Silva Portela, esse debate se conecta à humanização da assistência. A tecnologia pode apoiar o cuidado, mas precisa considerar diferentes níveis de familiaridade digital, limitações visuais, auditivas e motoras, além das condições sociais do usuário. Caso contrário, uma ferramenta criada para ampliar o acesso pode produzir uma nova barreira. O desenvolvimento dessas soluções precisa considerar a experiência de quem efetivamente utilizará o serviço, especialmente em uma população idosa cada vez mais diversa.

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