Inteligência artificial chega ao skincare e promete personalizar cosméticos: o que muda para a mulher brasileira

Louise Corvain Por Louise Corvain
Inteligência artificial chega ao skincare e promete personalizar cosméticos: o que muda para a mulher brasileira

Novas ferramentas analisam a pele, ajudam na escolha de produtos e aceleram a personalização, mas não substituem avaliação profissional.

A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta digital para entrar diretamente na rotina de beleza. Nos últimos dias, novas iniciativas mostraram como a tecnologia está sendo usada para analisar características da pele, acelerar pesquisas cosméticas e criar experiências de compra mais personalizadas. Um dos movimentos mais recentes ocorreu no Brasil: o Grupo Boticário ampliou sua parceria com a Haut.AI para levar uma solução de análise de pele e recomendação de produtos a quase 4 mil lojas O Boticário, depois de um projeto-piloto realizado em 24 unidades. Segundo informações divulgadas sobre a expansão, o teste registrou aumento de aproximadamente 80% no valor médio dos pedidos de skincare. (TrendHunter.com)

A novidade levanta uma pergunta que interessa diretamente a quem compra cosméticos: a inteligência artificial realmente consegue descobrir o que a pele precisa? A resposta exige separar personalização de diagnóstico médico. Ao mesmo tempo em que a tecnologia pode facilitar escolhas e tornar o consumo mais direcionado, órgãos como a Anvisa vêm criando mecanismos para acompanhar a segurança dos cosméticos personalizados.

Como a inteligência artificial está mudando a escolha de produtos para a pele

A análise de pele por inteligência artificial funciona a partir da interpretação de imagens e de diferentes indicadores visíveis. Dependendo da tecnologia utilizada, o sistema pode avaliar características relacionadas à textura, hidratação, oleosidade, aparência de linhas, uniformidade e outros parâmetros, transformando essas informações em recomendações de produtos ou rotinas. A novidade do Grupo Boticário mostra que esse modelo está avançando do ambiente exclusivamente digital para as lojas físicas, aproximando tecnologia e atendimento presencial. (TrendHunter.com)

Para a consumidora, a principal vantagem potencial está em diminuir a dependência de escolhas baseadas apenas em tendências das redes sociais. Em vez de comprar um sérum porque ele viralizou ou porque uma influenciadora disse que funciona para todo mundo, a cliente pode receber uma recomendação relacionada a determinadas características observadas em sua pele. Isso não significa que a tecnologia saiba tudo sobre o organismo, mas pode funcionar como uma ferramenta adicional para organizar informações e facilitar a descoberta de categorias de cosméticos. A expansão brasileira acontece justamente quando a indústria internacional acelera experiências de beleza personalizadas, incluindo lojas com diagnóstico digital e sistemas capazes de combinar produtos de skincare com características individuais. (Global Cosmetics News)

A inteligência artificial também está chegando à etapa anterior ao produto final: a pesquisa e o desenvolvimento de ingredientes. Em 6 de agosto, a Haut.AI anunciou uma plataforma voltada a estudos clínicos remotos e híbridos de skincare, capaz de medir 48 biomarcadores relacionados a rosto, corpo e cabelo. Segundo a empresa, a ferramenta pretende permitir estudos com grupos maiores e acelerar a coleta de dados para empresas de skincare, ingredientes e dermatologia. (Cosmetics Business)

Outro exemplo vem da BASF, que apresentou em agosto os ativos Floragenist Rose e Floragenist Blossom, desenvolvidos combinando ciência epigenética e uma tecnologia de extração baseada em ingredientes de origem vegetal. A empresa informou resultados de estudos clínicos para o ativo voltado à luminosidade e redução de vermelhidão, embora esses resultados sejam informações divulgadas pela própria fabricante e não devam ser confundidos com uma recomendação médica. (BASF)

Personalização de cosméticos já entrou no radar da Anvisa

A chegada da inteligência artificial ao mercado de beleza não acontece sem regras. A Anvisa criou um projeto-piloto de sandbox regulatório específico para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes personalizados. O objetivo é permitir que modelos inovadores sejam testados em ambiente controlado, com acompanhamento da Agência, para produzir evidências sobre segurança, eficácia, rastreabilidade e possíveis necessidades de regulamentação definitiva. (Serviços e Informações do Brasil)

A iniciativa é especialmente relevante porque personalização pode significar coisas diferentes. Um sistema pode apenas recomendar um cosmético industrializado que já está regularizado, mas também existem modelos em que características ou formulações são ajustadas para determinado consumidor no momento da venda. Quanto maior a interferência individual na composição do produto, maior a importância de controles sobre ingredientes, concentração, fabricação, armazenamento, rastreabilidade e segurança. A própria Anvisa informou em maio que quatro projetos inovadores haviam sido habilitados para análise técnica detalhada, com expectativa de que as primeiras operações de personalização começassem no segundo semestre de 2026. (Serviços e Informações do Brasil)

Para quem compra skincare, isso representa uma mudança importante de perspectiva. A palavra “personalizado” não deve ser interpretada automaticamente como sinônimo de “melhor”, “mais seguro” ou “indicado para qualquer problema”. A consumidora continua precisando verificar a procedência do produto e desconfiar de promessas exageradas, especialmente quando uma ferramenta tecnológica apresenta resultados com aparência científica. Em julho, por exemplo, a Anvisa atualizou listas de substâncias proibidas e restritas para cosméticos, reforçando que inovação precisa permanecer dentro de parâmetros sanitários. (Serviços e Informações do Brasil)

Outro ponto envolve a diferença entre cosmético e tratamento de saúde. Uma análise automatizada pode apontar características aparentes da pele e sugerir produtos, mas não deve ser tratada como diagnóstico de acne, dermatite, rosácea, melasma ou outras condições. Alterações persistentes, dor, inflamação, feridas, manchas suspeitas ou sintomas que causem preocupação precisam ser avaliados por profissional de saúde habilitado. A tecnologia pode complementar o autocuidado, mas não substitui consulta, histórico clínico e avaliação individual.

O que a mulher brasileira deve observar antes de confiar em uma ferramenta de beleza

O crescimento da beauty tech também traz uma questão que vai além da eficácia dos cosméticos: quais dados estão sendo coletados? Uma fotografia do rosto pode parecer uma informação simples, mas ferramentas de análise podem associá-la a respostas sobre idade, características da pele, hábitos de consumo e preferências. Por isso, antes de utilizar uma plataforma, é importante entender quais dados são solicitados, para que serão utilizados e quais são as condições de armazenamento e compartilhamento. Quanto mais personalizada é a experiência, maior tende a ser a quantidade de informações necessária para alimentá-la.

A expansão da inteligência artificial no comércio também mostra que a tecnologia está mudando a própria forma como consumidores descobrem produtos. Uma reportagem da Reuters publicada em agosto apontou que consumidores estão recorrendo cada vez mais ao ChatGPT e ao Gemini para recomendações de compras, enquanto varejistas buscam aparecer nas respostas desses sistemas. O movimento indica que a inteligência artificial não está apenas criando produtos ou analisando consumidores: ela também começa a interferir na maneira como as pessoas encontram aquilo que pretendem comprar. (Reuters)

No universo da beleza, essa transformação pode ser positiva quando ajuda a reduzir compras desnecessárias e facilita o entendimento sobre diferentes categorias de produtos. Uma rotina mais personalizada também pode significar menos itens acumulados no banheiro e escolhas mais alinhadas às necessidades reais, algo que conversa com preocupações de sustentabilidade e consumo consciente. Mas existe um risco quando a personalização é usada apenas para estimular mais compras, criando a sensação de que cada pequena característica da pele exige um produto específico. Tecnologia não deve transformar autocuidado em uma sequência interminável de aquisições.

Também é importante lembrar que procedimentos estéticos não devem ser escolhidos com base exclusivamente em uma análise automatizada. Se uma plataforma sugerir determinado tratamento, aplicação ou intervenção, a decisão precisa passar por avaliação de profissional habilitado, considerando indicação, contraindicações, riscos e características individuais. No caso de procedimentos médicos, essa avaliação é especialmente importante, pois uma fotografia ou algoritmo não substitui exame clínico e histórico de saúde.

A tendência mais interessante, portanto, não é simplesmente colocar inteligência artificial diante de um espelho. É usar dados e tecnologia para tornar a relação com a beleza mais informada, individualizada e consciente. A consumidora brasileira pode aproveitar ferramentas de análise de pele como apoio para conhecer melhor os produtos disponíveis, mas deve continuar questionando promessas, verificando a regularização sanitária e procurando orientação profissional quando houver uma questão de saúde.

A beleza tecnológica está avançando rapidamente, e o Brasil já participa desse movimento tanto pelo mercado quanto pela discussão regulatória. A Anvisa, ao testar modelos de personalização em ambiente controlado, mostra que inovação e segurança precisam caminhar juntas. Para a mulher, a principal mudança pode estar na possibilidade de sair de rotinas genéricas e tomar decisões mais adequadas às próprias necessidades. O protagonismo, porém, continua sendo dela: nenhuma inteligência artificial deve substituir conhecimento, senso crítico ou orientação profissional quando o assunto ultrapassa o campo dos cosméticos.

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